Músico Levita: um termo que busca reconhecimento humano

Músicos entoando cânticos

O termo levita é aplicado na igreja contemporânea na transição entre as décadas de 80 e 90.

Até esse período os oficiais da igreja eram somente pastores e diáconos, conforme o ensinamento bíblico. (Esclarecimento: O termo oficiais da igreja não significa superioridade hierárquica, mas é sinônimo literal de obreiro ou trabalhador da igreja). Entretanto, duas coisas contribuíram para o fim do diaconato:

  • Pessoas com orientação doutrinária estranha à da igreja local que após serem consagradas ao diaconato promoviam divisão nas igrejas locais;
  • O foco na administração eclesiástica para eficiência executiva transformando o pastor em espécie de administrador conforme as novidades que encontravam resistência no corpo diaconal.

 

Em tal situação os diáconos foram considerados inconvenientes e buscou-se resolver o “entrave diaconal”.

Certo pastor contava uma piada maliciosa nas classes de um Seminário Teológico dizendo “resisti ao diácono e ele fugirá de vós”.

Como solução, infeliz diga-se de passagem, os administradores eclesiásticos que infestavam a JUERP e outros órgãos denominacionais começaram a adotar a organização de igreja em ministérios. A organização em ministérios veio devagar para substituir o diaconato de tal forma que muitas igrejas, hoje, possuem apenas ministros e nenhum diácono ou os diáconos estão em situação secundária.

Em decorrência da diminuição da importância do diaconato surgiu uma lacuna na dignidade dos obreiros da igreja

a tal ponto que os ministros dos diversos ministérios sentiam-se ressentidos, pois a própria igreja tinha dificuldade em reconhece-los inicialmente. Houve uma crise de autoestima ministerial.

Nessa crise de autoestima ministerial, os músicos que são naturalmente mais sensíveis pelo seu caráter artístico, buscaram formas de se identificarem de forma mais digna perante a igreja. Claro que surgiram aí também vaidades como o desejo de possuir um título.

Os outros ministros importavam-se pouco com isso, talvez pelo caráter menos sensível de seus trabalhos em geral. Para resolver a crise dos músicos, surgiu uma interpretação forçada da estrutura de culto do Antigo Testamento que comparava os músicos com levitas baseado em textos como 1 Crônicas 9.33 que afirmava que os levitas líderes de família, além de liderar também eram cantores do templo.

Essa interpretação acariciou muitos egos e logo foi aceita,

pois incluíam como levitas não só os ministros titulares do departamento de música, mas qualquer um que cantasse ou tocasse um instrumento. Tal fato coincidiu com a ascensão comercial da música gospel que gerou um mercado promissor e vaidoso com espaço para muitos sujeitos.

A interpretação de 1 Crônicas 9.33 é descabida, além de vaidosa, pelos motivos que elenco a seguir.

Em primeiro lugar os levitas eram uma tribo de Israel e não uma função ou título.

A função dos levitas era sacerdotal, como descendentes de Aarão. Para ser levita era necessário nascer na tribo de Levi o que não acontece hoje, pois ao que consta, tal tribo está praticamente extinta, além de não existir templo em Jerusalém para o ofício sacerdotal do Antigo Testamento que caducou com o sacrifício vicário de Cristo.

Essa realidade de pertencer a uma tribo é tão literal que em 1 Crônicas 9.14 e subsequentes são listados os membros das famílias que compunham os levitas que ofereciam trabalho no templo do Senhor.

Em segundo lugar, a condição de levita não estava vinculada à música de forma quase que nenhuma ou meramente secundária,

1 Crônicas 9.17-27 cita várias famílias que eram guardas do templo e não cantores, os versículos 28-29 cita diversos levitas que eram apenas zeladores do templo e não cantores; os versículos 30-32 mostram que outros levitas exerciam o trabalho manual de preparação dos ingredientes do culto como os pães da proposição.

A única referência a uma classe de levitas cantores refere-se a uma classe que não executava trabalhos manuais como os outros levitas, pois eram líderes das famílias e se dedicavam à administração dos outros levitas. Como o sacerdócio envolvia principalmente o trabalho manual e operacional, mas os levitas líderes exerciam um trabalho administrativo foi concedido a eles que compensassem a falta de labor operacional com a prática do canto.

Observe-se que o canto poderia ser usado, como é usado em várias situações até hoje em dia, como inspirador para o trabalho.

Em vários grupos de trabalhadores tradicionais existem canções de trabalho que permitem uma unidade no serviço evitando distrações e acidentes. Podemos citar como oriunda de canções de trabalho o ritmo americano do blues e o próprio spiritual gospel. Logo, era coerente que levitas administradores também fossem cantores para inspirar o trabalho no templo enquanto louvavam a Deus.

Como se observa o sacerdócio do levita compreendia inúmeras atividades, dentre as quais, o canto não era a principal,

mas uma concessão aos levitas que devido ao trabalho administrativo deveriam cumprir sua carga de trabalho operacional. Logo, o canto não é visto como uma atividade superior, mas como uma atividade operacional compensatória para igualar todos os levitas no que concerne à equivalência entre trabalho operacional e administrativo.

Sendo assim, não se justifica a adoção do termo levita como título de ofício dentro da igreja,

pois não somos a tribo de Levi se não somos descendentes genéticos dessa tribo, não somos mais sacerdotes do que outros crentes, pois o sacerdócio dos crentes em Cristo é universal e, além disso, a mera compensação de trabalho físico não constitui privilégio, visto que o objetivo era gerar a igualdade no ofício sacerdotal do passado.

É recomendado que as igrejas revejam sua organização segundo os oficiais da igreja que são os pastores e diáconos, sendo que todo serviço auxiliar ao pastorado é diaconal. Algumas igrejas sequer consideram a existência de diaconato e, com isso, geram modismos que distorcem as orientações das Escrituras.

Se temos pessoas consagrada ao louvor ou qualquer outro serviço na igreja, que tais pessoas sejam consagradas ao diaconato evitando-se a descaracterização dos oficiais da igreja previstos no Novo Testamento.

Sobre Marco Teles 182 Artigos
Formado em Teologia e Pedagogia, pós-graduado em Ensino Religioso, Neurociência Pedagógica, Comunicação e Oratória. Praticamente um "coxinha fundamentalista". Educador Religioso da Igreja Batista em Icaraí, Terceira Igreja Batista em Trindade e Diretor do Ministério Infanto Juvenil na Primeira Igreja Batista de Niterói, não exatamente nesta ordem e tempo. Meu princípio básico é servir a Deus, mesmo de forma incompreensível ao homem mundano, pois não existe comunhão da luz com as trevas. Por isso mesmo continuo pregando o Evangelho, para trazer mais pessoas à comunhão com Deus.

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